Sua Majestade Imperial a Senhora Duquesa de Bragança encarregou-me de convidar V. Exa. e à Exma. Sra. Condessa de Paraty para jantarem com Sua Majestade Imperial depois de amanhã 27 do corrente pelas seis horas da tarde.
Aproveito com sumo prazer esta ocasião de repetir a V. Exa. os rendidos protestos da minha estima e mais subida consideração.
Deus guarde a V. Exa.
O Marquez desde 1813 que estava no Rio de Janeiro, tinha feito parte da Guerra Peninsular, como Ajudante de campo do Marechal Beresford, e, conquanto não tivesse ainda trinta annos, era já casado terceira vez, sendo sua mulher uma filha de meu tio e tutor, o Marquez de Bellas, a actual Marqueza de Angeja, viuva. A sua segunda mulher, a Marqueza de Angeja, D. Juliana, era a irmã mais velha de minha mulher.
Minha futura sogra recebeu um grande choque com a vista do Marquez, de quem era verdadeiramente amiga, porque lhe avivou a saudade da filha que perdera, por quem tinha grande extremo.
O Marechal Beresford, que estava então no Brazil, fazia, segundo constava, as mais sensatas observações contra as repetidas requisições de gente e de dinheiro, mas inutilmente.
O General Marquez de Angeja partiu com a nova expedição do seu comando para différentes portos do Brazil.
Durante o lucto da Rainha D. Maria I, fizeram-se os casamentos das Senhoras Infantas D. Maria Izabel com seu tio, El-Rei Fernando Vil de Hespanha, e D. Maria Francisca com outro tio, o Infante D. Carlos, que ha pouco morreu, sendo pretendente á coroa de Hespanha.
Uma bela esquadra, comandada pelo Almirante Farina, conduziu as Princesas a Cadiz, e vários personagens da Corte do Rio de Janeiro as acompanharam. O Marquez de Vallada, pae do actual, foi nomeado, por esta occasião, Mordomo-Mor de Suas Altezas, e a viuva do Conde de Linhares D. Rodrigo de Sousa Coutinho, de origem piemonteza, acompanhou as Princesas, como Camareira-Mor.
As festas por estes casamentos, tanto em Cadiz, como em Madrid, foram magnificas. Não as descrevo, porque não estou no caso de o fazer, mas ellas vêem descriptas na Gazeta de Lisboa da época.
AS MALUQUICES DO IMPERADOR (várias intervenções do 1°
Conde de Paraty)
Paulo Setúbal
Pg 6
A BAILARINA DO TEATRO S. JOÃO
20 de março de 1816. O Rio de Janeiro amanheceu lúgubre.
Tudo bruma e cinza. Bóia no
ar uma plangência estranha. Bandeiras enroladas em fumo.
Dorido tanger de sinos.
Veludos negros tombando das varandas. Os coches
carregados de crepes. No paço,
onde há um borborinhante vaivém de gente, os cortesáos sobem e descem as
escadarias, todos de preto, protocolarmente compungidos,
num grande luto. Que houve?
Um acontecimento grave: morreu D. Maria I, a louca, mãe
de D. João VI.
Na Sala dos Despachos, transformada em câmara mortuária,
repousa o cadáver da
rainha. É uma velha de oitenta e dois anos. As mãos em
cruz, muito longas e maceradas,
um sorriso esvoaçante gelado na boca, a morte está
paramentada de grande gala.
Faísca-lhe ao peito a grã-cruz de S. Tiago. Traz a
tiracolo a banda da Ordem de Cristo.
Traz a banda encarnada de Aviz. Envolve-lhe o busto, com
chocante suntuosidade, o
manto real de veludo carmezim, forrado de seda branca,
todo borrifado de estrelas de
ouro.
O corpo ficara em exposição.
Espera-se, apenas, que D. João VI venha beijar-lhe as
mãos para franquear a câmara ao
público. D. Carlota Joaquina, essa, pela manhã, já viera
com as filhas. A rainha D. Mana,
em vida, detestara D. Carlota Joaquina. D. Carlota, por
sua vez, detestara a rainha. Não
se toleraram nunca. Nesse dia, por mera etiqueta, D.
Carlota penetrou na câmara ardente,
beijou friamente a mão da morta, virou as costas saiu sem
derramar lágrima.
Encerrou-se, depois, nos seus apartamentos. E nunca mais
tornou a penetrar na câmara.
Nem sequer desceu para acompanhar o esquife até ao coche.
O pobre D. João VI, no entanto, desolara-se fundamente.
Chorou como um menino, aos
borbotões. Filho incomparável, afetuosíssimo, a perda da
rainha lanhara-lhe o coração
como uma espadeirada. E agora, naquele instante, Sua
Majestade deve descer para a
despedida.
São três horas da tarde. Os corredores estão coalhados de
palacianos. Todos esperam o
rei. Nisto, de luto fechado, os olhos muito vermelhos,
cabelos em desordem, D. João
aparece no salão mortuárIo. Vem acompanhado de D. Pedro e
D. Miguel. O Conde de
Parati e o Visconde de Magé, os seus validos, os dois
amigos do coração, circundam-no
funereamente. Ambos choram. Na câmara-ardente, de pé, os
vestidos lantejoulados de
vidrilhos negros, a Senhora Viscondessa do Real Agrado,
que é camareira-mor, e D.
Margarida Sofia de Castello Branco, que é dona da câmara,
velam com fundos respeitos
o corpo real. D. João entra. O Marquês de Anjeja,
reposteiro-mor, retira o manto que
cobre a defunta. E então, sinceramente ferido, as
lágrimas a saltarem-lhe dos olhos
aquele homem gordo, bochechudo, abraça desvairadamente o
cadáver da mãe. Beija-o.
Beija-o longas vezes. Beija-o repetidamente, aos soluços,
acabrunhado, num grande
desespero comovido. O príncipe e o infante debruçam-se
também sobre o caixão: e
ambos, com um ósculo demorado, despedem-se da avó. É
tocante. Mas, o Senhor
Marquês de Aguiar, D. Fernando José de Portugal e Castro,
ministro das três pastas,
suplica ao rei que se recolha. Os validos também
suplicam-lhe que se poupe a tanta dor.
D. João, que chora sempre, deixa a câmara mortuária.
Retira-se para os seus aposentos.
Uma angústia cruciante rasga-lhe a alma: é a única dor
sincera, a única chaga viva que
abriu a morte da louca.
* * * Pg 7-8-9
Oito horas da noite. Trancado no seu quarto, muito
inquieto, o príncipe D. Pedro passeia
agitadamente. Tudo aquilo, aqueles lutos, aqueles
cortesões fúnebres, aqueles coches
recobertos de crepe, revira-lhe azedamente os nervos. De
vez em quando, enfiando o
olhar pela janela, Sua Alteza vê os altos dignitários
chegarem para o beija-mão. É o
Cardeal Capelli, núncio apostólico, com as suas sedas
escarlates; é Lorde Strangford, o ministro inglês, de casaca negra, luvas,
cartola felpuda de palmo e meio; é o Conde de
Cavaleiros, mordomo-mor, com o seu largo fitão a tiracolo
e a Ordem de Cristo vermelhejando na lapela; é o...
E D. Pedro, aquele belo príncipe de dezassete anos,
moreno, olhos muito negros e muito
românticos, aquele moço garboso, aquele moço doidivanas e
estúrdio, que enche a corte
com os seus estouvamentos, D. Pedro é talvez o único, na
hora fúnebre, que não se
interessa por aquelas pompas, por aqueles crepes, aqueles
lutos. O seu espirito está
longe dali. A sua ânsia é outra. Punge-lhe um desejo
estranho. Ferreteia-lhe uma vontade
louca de voar, de deixar o Paço, de fugir àquelas
tristezas, de correr para um ninho
amado... Para um ninho que o espera com carícias
entontecedoras. E D. Pedro, dentro
dos seus aposentos, numa irascibilidade mórbida, anda,
fuma, agita-se. Goteja-lhe no
cérebro um pensamento só. É uma idéia fixa, enrodilhante.
No desvario duma paixão
furiosa, paixão de adolescente, D. Pedro não pensa noutra
coisa senão no seu amor. Não
aspira outra coisa a não ser o saciar aquela tortura
faminta de amar e ser amado. E
sozinho, naquela noite lúgubre, o príncipe sonha com
ela... E arde por ela... Ela por toda
parte! De repente, num assomo, D. Pedro bate palmas. O
criado ergue o reposteiro. É
Plácido Pereira de Abreu: É o antigo barbeiro do Paço. É
a pessoa que o príncipe mais
estima na corte. E D. Pedro, ao vê-lo, ordena-lhe em voz
baixa:
- A minha capa negra e o meu sombreiro de abas largas.
Plácido sorri. E o príncipe:
- Você já sabe aonde vou, não sabe?
- Sei! Vossa Alteza vai para o largo do Rocio.
- Vou! Não posso mais. Aquela mulher é a minha paixão...
Mas, é bom que Vossa Alteza se acautele, tornou o criado;
é bom não sair pela frente do
Paço. Há muito coche, muito escudeiro, muita gente graúda
que vem chegando. Vossa
Alteza pode topar com muito mexeriqueiro. É mais prudente
que Vossa Alteza saia pelo
alçapão.
- Você tem razão, Plácido. Traga-me a capa e abra o
alçapão. Plácido trouxe a capa. D.
Pedro enrodilhou-se profundamente nela. Enfiou o chapéu
de abas largas, enterrou-o na
cabeça, quebrou-o nos olhos. O criado, depois de vestir o
amo, recuou uma pequena
mesa que havia no meio do aposento. Ergueu o tapete.
Depois, com jeito, levantou um
alçapão disfarçado no soalho. D. Pedro meteu-se por ele.
Pulou no andar térreo. Era
exatamente a "Sala dos Pássaros". Dai, abrindo
as portas do fundo, D. Pedro precipitouse
na rua. (1)
De preto, enrodilhado - na capa negra, o vasto chapéu
mergulhado até às orelhas, o vulto
misterioso esgueirou-se pelos becos escuros do velho Rio.
Um ou outro lampião de
azeite. Escuridão espessa na cidadezinha suja. De vez em
quando, passava um capoeira
assobiando. Tudo mais silêncio. O príncipe alcançou o
largo do Rocio. Estacou diante
dum sobrado. Bateu à porta. Uma luz súbita jorrou lá
dentro. E logo, na sacada, uma voz
sonora, muito orvalhada, gritou do alto:
- "Qui est-lá?"
E o príncipe, cá em baixo, com um sussurro:
- Sou eu! Abra...
Instantes depois, no sobrado do Rocio, D. Pedro,
arremessando a capa, atirava-se
perdidamente nos braços duma linda moça. A rapariga, fina
e leve, ria-se daquela
maluquice em noite tão fúnebre...
Era a Noemi. Era a famosa bailarina do Teatro S. João.
Foi numa noite de gala, aniversário do príncipe regente,
que D. Pedro viu no palco, pela
primeira vez, a bailarina entontecedora. Era uma
francesinha de matar. Uma boneca de
luxo, toda pluma frágil como um bibelô. E tão loira! E
tão fresca E dona duns olhos tão
grandes, tão liricamente azuis! D. Pedro era um príncipe
impetuoso. Tinha dezessete
anos, o coração sôfrego. A bailarina, a criatura
pequenina e doce, fascinou-o doidamente.
D. Pedro atirou-se às tontas na aventura. Noemi foi o seu
primeiro amor. Foi a loucura da
sua adolescência. O moço Bragança desatinou-se. Fez tudo
o que podia fazer, aos
dezessete anos, um príncipe de sangue, herdeiro do trono,
desbragado e estróina. Viveu
com a rapariga uma vida de romance, boêmia, ensartado de
noitadas febrentas, com
serenatas de violão e de lundus. Cobriu-a de sedas.
Recamou-a de pérolas. Lantejolou-a
de pedrarias magníficas. Foi um estonteamento! A aventura
custou-lhe uma fortuna.
Um dia, porém, o Plácido veio despertá-lo bruscamente
daquela embriaguez de amor. O
criado falou com severidade:
- É preciso liquidar as dividas, príncipe! Vossa Alteza
está encalacrado. A casa Phillips
anda reclamando o pagamento... A coisa já vai longe!
D. Pedro, com indiferença:
- Quanto é que eu estou devendo, Plácido?
- É fácil dizer, Alteza.
Sacou um caderninho do bolso e começou a fazer as contas:
- Casa Phillips... joalheiro do Paço... ourives da Rua do
Piolho... modista da Rua do
Ouvidor... modista da Ajuda... perfumista... florista...
luveiro... dinheiro fornecido... Tudo
somado, como Vossa Alteza vê, faz onze contos novecentos
e oitenta. Digamos doze
contos.
- Doze contos?
E, D. Pedro, estuporado, deu um salto da cadeira:
- Doze contos?
- Doze contos! E é preciso pagar. Os fornecedores vivem
atrás de mim. Eu sempre a
adiar...
- Diabo, exclamou o moço num esbraseamento, pondo ás mãos
na cabeça; diabo! Onde
vou eu achar tanto dinheiro?
D. Pedro recebia um conto de réis por mês. Aquela
bagatela mal dava para a tença dos
seus moços da câmara, para pagar os seus criados, fazer
as suas esmolas, comprar os
seus cavalos. Mas, D. João era sovina. Um unhas-de-fome.
Não havia meio de sair do
conto de réis. Por isso, diante da divida, diante
daqueles doze contos de réis, o príncipe
desnorteou-se. Não sabia como desentalar-se. O Plácido
começou a sugerir planos:
- Vossa Alteza procure o Targini, tesoureiro de el-Rei,
conte o que sucedeu, peça o
dinheiro.
- Está maluco, Plácido? O Targini faz um barulho de cair
o céu! Arrebenta o escândalo por
aí. Meu pai enlouquece...
- Neste caso, antes de falar ao Targini, Vossa Alteza
fale com um valido do Senhor D.
João. O Visconde de Magé ou o Conde de Parati. Vossa Alteza
expõe o que há, pinta
claramente o aperto, pede aos validos que convençam D.
João a fornecer o dinheiro.
D. Pedro detestava os validos do pai. Nunca lhes dirigia
a palavra. Achava-os muito tolos
e muito carolas. Dava-lhes a mão a beijar secamente. Nunca
teve um sorriso para eles.
Eis porque, sem vacilar, exclamou com vivacidade:
- Deus que me guarde! Eu prefiro morrer a pedir um favor
àqueles beatões. Aquilo é gente
ruim. Uns pestes! Vamos bater noutra porta...
E começaram ambos, o amo e o criado, a engendrar um meio
de pagar as dividas. O
Plácido lembrou timidamente:
- O Pilotinho, se Vossa Alteza quisesse, emprestaria o
dinheiro...
- O Pilotinho?
- Sim, o Pilotinho. Eu vou sempre molhar a goela, na
bodega do homem; e o homem,
cada vez, não se esquece de me dizer: "oh! Plácido,
vê se arranjas um jeitinho de eu me
encaixar nas boas graças do Paço. Tu és tão amigo lá do
Príncipe..." Ora, como Vossa
Alteza sabe, o Pilotinho é rico. Uma palavra de Vossa
Alteza - zás - estão aqui os doze
contos de réis...
D. Pedro era um estróina. Um doidivanas completo. Não
refletiu um instante no disparate
daquele alvitre. Pedir emprestado dinheiro ao Pilotinho
era para D. Pedro tão natural
como pedir emprestado a D. João VI. E o príncipe
agarrou-se à idéia:
- Bravos! Não há que discutir. Corra a casa do Pilotinho
e traga-me aqui o homem com os
doze contos.
O Plácido saiu.
Joaquim Antônio Alves, o Pilotinho, era um pé-de-chumbo
rico, bodegueiro na rua dos
Barbonos. O dinheiro dera-lhe prestígio. E o homem andava
faminto por doirar aquele
prestígio com amizades vistosas, que o honrassem. O
Plácido contou-lhe o que havia.
Transmitiu-lhe o pedido do príncipe. O bodegueiro abriu
dois olhos fuzilantes! Correu para
dentro, vasculhou uma empoeiradíssima arca, empacotou um
monte de notas, veio num
aturdimento para o Paço. O Príncipe, ao vê-lo entrar,
recebeu-o com bulhento alvoroço.
Pegou no dinheiro, fechou-o no contador, virou-se
esfuziante para o pé-de-chumbo:
- Você é amigo, Pilotinho! Você é um grande amigo! Tome
lá...
E abraçou-o. Abraçou-o com uma larga ternura comovida. O
Pilotinho, o tosco
bodegueiro, para receber do herdeiro do trono um abraço
assim tão quente, tão apertado,
não emprestaria apenas aqueles misérrimos doze contos:
daria ao príncipe toda a sua
fortuna...
Pg 10-11
II
A aclamação de D. João VI foi um deslumbramento. A mais
soberba festa que a Colônia
vira até então. Aquele rei burguês, aquele homem
bonacheirão e gordo, empenhara-se
com alma, rasgadamente, para que seu grande dia tivesse
um brilho único, estonteante,
Não houve poupança. Targini. o tesoureiro de el-Rei,
abriu os cofres atulhados de barras
de ouro E foi um gastar profuso, um enfeitar, um cobrir
de luxos desmedidos aquele pobre
Rio de 1816.
São três horas da tarde. A Varanda Real cintila. É um
pavilhão imenso, suntuosíssimo,
que João da Silva Muniz, arquiteto do Paço, sob o olhar
vigilante do Barão do Rio Seco,
construíra exclusivamente para o ato supremo. Faiscam
dentro dele atavios régios. Toda
a aristocracia da corte, a mais alta, a de sangue mais limpo,
borborinha por entre os
capitéis dourados. Nas tribunas, de onde jorra uma crua
faiscação de jóias, papagueiam
risonhamente as damas, os decotes branquejando entre
rendas e gazes, os altos trepamoleques
de ouro cravados nos cabelos em coque. Lá está na tribuna
de honra, que é de
seda rosa, toda broslada de arminhos, a Senhora D.
Carlota Joaquina, muito empoada,
pêlos ruivos na cara áspera, sentada triunfalmente entre
as quatro princesinhas.
De repente, pelo ar festivo, rompem as charamelas. A
corte inteira, ao toque eletrizante,
ergue-se com ânsia. Os olhares todos cravam-se ávidos na
entrada. O Porteiro Real
escancara as portas. E o cortejo magnífico surge. Que
belo! À frente, com as grossas
maças de prata ao ombro, vêm os Porteiros da Cana.
Depois, o Rei-d'Armas, com o seu
vistoso capacete empenachado. Seguem-se os dois Arautos,
com as longas trompas de
ouro. Finalmente os Passavantes cobertos de ferro, as
couraças de escamas refulgindo.
O Alferes-Mor empunha a Bandeira Real enrolada na haste.
E o séquito passa. São os
Moços da Câmara, são os Moços Fidalgos, são os Grandes do
Reino, são os Bispos, é
Tomás Antônio Vila nova Portugal, Monistro e Secretário
de Estado.
Enfim, o Rei.
Sua Majestade tem à direita o Príncipe D. Pedro, herdeiro
do trono, descoberto, um largo
fitão a tira-colo. À esquerda, servindo de condestável, o
Infante D. Miguel trazendo na
mão um estoque desembainhado. E D. João VI entra. A
Varanda Real freme, sacudida.
Lá fora, uivando, O povo delira. E é uma atroada louca,
ribombos de canhão, morteiros,
sinos bimbalhantes, charangas enchendo os ares de marchas
estrepitosas. O Rei está
soberbo. É a primeira vez que os vassalos o vêem com
todas as galas da realeza.
Faiscam-lhe ao peito as insígnias de suas ordens.
Pende-lhe do pescoço o colar do
Tosão de Ouro. Tomba-lhe dos ombros, com a mais grandiosa
magnificência, o manto
real. É riquíssimo, de veludo carmezim, bordado a fios de
ouro, semeado de castelos e
quilhas, apresilhado por dois imensos broches de
diamantes que fuzilam,
fulgurantissimos. O Conde de Parati, no oficio de
camareiro-mor, carrega a cauda do
manto. Sua Majestade avança rutilando até a um alto
estrado. Ai, sob largo dossel de
damasco, está armado o trono real.
O Marquês de Castelo Melhor, reposteiro-mor, retira o
damasco que o cobre. O Conde de
Parati entrega a Sua Majestade o cetro. D. João senta-se.
Os cortesãos, de acordo com
seus cargos, espraiam-se pela Varanda. Ao lado do trono,
atendendo o Rei, ficam o
Marquês de Torres Novas e D. Nuno José de Sousa Manuel,
gentis-homens honorários.
Em frente, hirto e solene, o Ministro do Reino. Depois, o
Marquês de Anjeja, que serve de
mordomo-mor. Vêm após os seis Bispos. Depois, os Grandes
do Reino. Depois, os
Titulares. Depois, o Senado da Câmara. Depois, a Mesa do
Desembargo do Paço.
Depois, a Casa da Suplicação. Depois...
Há um instante de silêncio. O Ministro de Estado faz um
sinal ao Rei-d'Armas. O
Rei~d'Armas avança até ao meio do Salão. Curva-se diante
de Luís José de Carvalho e
Melo, ilustríssimo Desembargador do Paço. O Desembargador
levanta-se, atravessa a
Varanda, posta-se em frente ao Monarca. O Rei-d'Armas
brada com retumbância:
- Ouvide! Ouvide! Ouvide! Estai atentos...
E Carvalho de Meio, diante do trono, sob um silêncio
grave, declama a fala do protocolo.
É rápida. Meia dúzia de frases rituais. E logo, terminada
a arenga, o Marquês de Castelo
Melhor coloca diante de Sua Majestade uma pequena mesa
recoberta de veludo verde. É
a hora do "Juramento Real". Momento supremo. D.
José Caetano, o Bispo-Capelão,
recebe do mestre de cerimônias o missal e o crucifixo.
Deposita-os sobre a mesa.
Ajoelha-se. O Bispo de Azoto, Prelado de Goiás, e o Bispo
de Leontópolis, Prelado de
Moçambique, testemunhas do grande ato, ajoelham-se
também. O ministro do Reino,
nesse momento, curva-se diante do trono: Sua Excelência
suplica a el-Rei que jure. D.
João levanta-se. Passa o cetro para a mão esquerda.
Ajoelha-se numa vasta almofada
acairelada de ouro. Estende a mão direita sobre o missal
e o crucifixo. E solene, com uma
lentidão majestosa, debaixo do olhar sôfrego da corte,
el-Rei presta o juramento sagrado:
- Eu, João, Rei de Portugal, do Brasil, dos Algarves,
juro...
E repete, palavra por palavra, a fórmula sacramental que
o Ministro do Reino vai lendo em
alta voz. Está acabado o juramento. D. João torna a
sentar-se no trono: está
definitivamente Rei.
Principia, então, com as mais severas etiquetas, uma
outra cerimônia. Cerimônia das
mais sérias e significativas: é o juramento de
"Preito e Vassalagem a el-Rei". O primeiro
que jura é o Príncipe Herdeiro. Em seguida, o Infante D.
Miguel. Depois, segundo as suas
hierarquias, o Ministro do Reino, os Bispos, os
Desembargadores, os Grandes, os
Titulares, a Nobreza. D. João, do alto do trono, recebe
com um sorriso o juramento dos
cortesãos. Quando o desfile finda, cessado aquele
burburinhar de gente, o Alferes-Mor
desenrola a bandeira real. E festivamente, em altas
vozes:
- Real, Real, Real, pelo muito Alto e muito Poderoso
Senhor D. João VI, Nosso Senhor!
Toda a corte prorrompe num brado só, entusiasticamente:
- Real, Real, Real!
E estrugem as músicas, largo vozerio, Há uma alegria
desordenada pela Varanda. O
Alferes-Mor, com a bandeira desenrolada, grIta em meio do
tumulto:
- Alas! Alas!
Todos abrem alas. O Alferes-Mor embarafusta-se por entre
as alas abertas. Vão-lhe à
frente os Porteiros da Cana, o Rei-d'Armas, os Arautos,
os Passavantes. E o préstito a
passo lento, aproxima-se do balcão que dá para o Terreiro
do Paço. Ali, na sacada, diante
de todo o povo, o Rei-d'Armas brada retumbante:
- Ouvide! Ouvide! Ouvide! Estai atentos.,. Há um
relâmpago de silêncio. O Alferes-Mor
lança a bandeira real ao vento. E com ufania, a pulmões
plenos, berra para a massa:
- Real, Real, Real, pelo muito Alto e muito Poderoso Rei
D. João VI, Nosso Senhor!
Que delírio! O povo desanda em gritos. Atroa o Terreiro
do Paço uma algazarra bravia,
Repiques de sinos sacodem o ar As fortalezas estrondam.
Fogos de artifício japonizam o
céu.
Debaixo da baruheira, rindo-se, o ar de glória e festa,
D. J0ão ergue-se E todo aquele
bando suntuoso ondeia. Lá vai a caminho da Real Capela.
Aí, sobre um troneto, rutilando
de luzes, há. uma relíquia do Santo-Lenho. El-Rei
ajoelha-se. A corte inteira ajoelha-se.
Sua Majestade beija a relíquia. Levanta-se. E enfim,
majestosamente, senta-se no trono
real, armado ao lado do altar. Rompe, no coro, a música
de Marcos Portugal. Começa o
'Te-Deum"...
Pg 12-13
* * *
A Capela Real abriu-se para o povo. Grossas ondadas de
gente inundaram subitamente a
nave. A igreja fervilhou. Não cabia dentro dela um
alfinete. Todo o mundo queria ver o
Rei!
Lá de cima, do alto duma tribuna, o Conde de Parati
contemplava risonhamente aquele
burburinho. De repente, com espanto, o cortesão deu de
chofre com uma rapariga loira,
muito linda, que cravava olhos sôfregos no trono. Era a
Noemi, a bailarina do Teatro São
João. A moça sorria. O Conde de Parati virou-se rápido:
ao lado do trono, desempenado e
belo, D. Pedro fitava impavidamente a moça. E, por seu
turno, diante da Corte, acintoso e
chocante, mandava-lhe um sorriso escandaloso. O Conde de
Parati, acotovelando o
Visconde de Magé, murmurou baixinho:
- Veja aquilo, Visconde!
- É a paixão, meu amigo! É a paixão que faz daquelas
coisas...
E o Magé, apagando a voz, num cicio:
- Vossa Excelência já sabe o resultado desses amores, não
sabe?
- O resultado desses amores? Não sei...
- Que diz?
E misterioso, bem ao ouvido do amigo:
- Saiba, meu Caro Parati, que a francesinha vai ser
mãe...
O Conde de Parati olhou pasmado para o Visconde de Magé.
Os seus olhos fuzilaram:
- Vossa Excelência está certo disso?
- Absolutamente certo! Contou-me o Plácido. E o Plácido,
como Vossa Excelência bem
sabe, é o amigo mais íntimo do príncipe...
O Conde de Parati calou-se. Aquilo era muito sério. O
escândalo mais atordoante que
poderia estourar aos ouvidos de D. João. É que agora,
exatamente naquele momento, el-
Rei tratava do casamento do filho. O Marquês de Marialva
já andava pela Europa a
sondar as casas reinantes. Parece que a da Áustria...
Imagine-se um pouco se D. Pedro,
aquele estúrdio, aquele príncipe estourado, perdido de
paixão como andava, cometesse a
loucura de casar-se às escondidas com a bailarina. Que
complicação! E o Conde de
Parati, muito apreensivo:
- Essa aventura do príncipe, meu caro Visconde, pode ter
conseqü.ncias brutais. É
preciso que D. João saiba de tudo, não acha?
- É preciso! Vossa Excelência presta a el-Rei um
altíssimo serviço, contando o que se
passa. É um caso grave.
- Tem razão, Visconde! É um caso grave. Amanhã, el-Rei
saberá de tudo...
No outro dia, ainda nos seus aposentos, D. João ouviu do
Conde de Parati os pormenores
das maluquices do príncipe. O Monarca arregalava os
olhos, estuporado:
- Doze contos? Pois o príncipe já gastou doze contos
nisso?
- Doze contos, Majestade. Dinheiro esse que pediu
emprestado ao Pilotinho.
- Ao Pilotinho? O bodegueiro da Rua dos Barbonos? Mas, é
incrível. Esse rapaz é um
louco! Esse rapaz me mata de vergonha! Veja que papel,
meu amigo! Pedir dinheiro ao
Pilotinho! Um príncipe!
E assim, trancados nos aposentos, el-Rei e o valido
conversaram longamente. Que é que
decidiram? Ninguém o soube. Apenas, ao sair, o Conde de
Parati afirmou:
- Vou providenciar os papéis para hoje mesmo. Amanhã,
quando a corveta partir, levará
os dois...
E saiu. Decerto, o Conde de Parati preparou os papéis.
Pois, no dia seguinte, seriam onze
horas, o íntimo de D. João apareceu no Largo do Rocio. A
bailarina espantou-se
imensamente:
- Vossa Excelência, Senhor Conde?
- Eu mesmo, Senhora Noemi. El-Rei mandou-me aqui para
pedir que Vossa-Mercê vá
comigo até ao Paço.
- El-Rei?
- El-Rei...
A ordem era estranha. Havia nela qualquer coisa de
mistério. Mas, que fazer? A
francesinha não pôde recusar. Vestiu às pressas o seu
vestido rodado, cor de pinhão,
enfiou as luvas, pôs o chapeuzinho de pluma branca. E
saiu saltitante, pequenina,
pisando leve como um passarinho. D. João recebeu-a com
afabilidade. Fez-lhe um
agradinho paternal no queixo. E logo, sem mais rodeios,
esfregando os dedos, com o seu
riso amarelo:
- Mandei chamá-la, minha filha, para dar-lhe uma ordem.
Uma ordem que é necessário
ser cumprida à risca: a menina tem de retirar-se hoje
mesmo da Corte...
- Eu?
- Sim, minha filha; Vossa-Mercê! Mas, eu não quero que a
menina, depois dessa
aventurazinha que teve com o príncipe, se vá embora ao
desamparo, sem dinheiro, sem
ter pessoa alguma que a ajude. Longe de mim tal coisa! Eu
resolvi, por isso, que Vossa-
Mercê se case. Dou-lhe para marido o tenente da minha
guarda. É um rapagão bonito, um
belo moço da ilha Terceira. Nomeei-o para um ofício de
Pernambuco. Um oficio de
primeira ordem, que rende oitocentos mil réis...
A moça ouvia aparvalhada. Aquilo esmagava-a. Não sabia o
que dizer. E D. João
continuava, esfregando os dedos, rindo aquele risinho
amarelo, muito dele:
- Já dei ordem para que o meu Tesoureiro leve a bordo a
quantia de seis contos de réis. É
uma ajudazinha para o enxoval do bebê que vai nascer.
Ordenei mais que entregue a
Vossa-Mercê cinco contos. Isso é uma lembrança minha: um
dote para Vossa-Mercê. A
Rainha, ao saber do caso, também mostrou muita simpatia
pela menina. Mandou, por sua
vez, que lhe desse um conto de réis. E ordenou ao
guarda-jóias que lhe entregue a
Vossa-Mercê um anel de ouro, com uma bonita pedra. É para
Vossa Mercê depositar
esse mimo no berço do seu filhinho, no dia em que for
batizado...
Noemi compreendeu tudo. Sentiu bem a inutilidade de
qualquer oposição. Era baldado
resistir. El-Rei podia fazer tudo o que quisesse. A
bailarina viu nítida a sua catástrofe.
Fincou soturnamente os olhos no chão; e as lágrimas, em
fios, começaram a despencarlhe
pelas faces...
- Os papéis do casamento já estão prontos, continuou
el-Rei. Vamos realizá-lo, menina.
E virando-se para o Conde de Parati:
Chame o padre, Conde. E traga também o noivo. Estão ambos
no Salão dos
Despachos...
Nessa tarde, quando a corveta largou ferro, a bailarina
do Teatro S. João precipitou-se
como louca no seu beliche. Atirou-se entre os almofadões
do leito. E ai, durante toda a
noite, abafando os soluços, a rapariga chorou num
desespero.
Que lua de mel!
* * *
D. João acabara de jantar. Comera os seus três
franguinhos. Comera-os com os dedos,
enlambuzando-se, atirando os ossos ao chão. O infante D.
Miguel correu ao aparador e
trouxe a bacia com o jarro de prata. O príncipe D. Pedro
ergueu o jarro, despejou a água,
ofereceu a toalha ao Rei. D. João lavou-se, enxugou as
mãos, fez o sinal da cruz. Depois,
feliz e bonacheirão, enlaçou o braço no braço do Conde
Parati:
- Vamos dar graças a Deus, Conde. E partiram para o
oratório.
D. Pedro, livre do protocolo, correu ansioso ao seu
apartamento. Que alvoroço! O coração
batia-lhe descompassado. Era o momento de partir para o
Largo do Rócio...
Naquela tarde, porém, mal o príncipe entrou, o Plácido,
assustadíssimo, surgiu como um
fantasma diante dele. D. Pedro estranhou aquela fúria:
- Que é isso?
- Vossa Alteza ainda não sabe?
- Você está louco, homem! Não sabe o quê?
- Vossa Alteza não sabe o que aconteceu a Noemi?
D. Pedro agarrou forte nos ombros do criado. Sacudiu-o
violentamente:
- À Noemi?
- Pois Vossa Alteza não sabe? A menina partiu hoje para
Pernambuco...
- Para Pernambuco?
- Sim, Alteza. Na corveta que acaba de sair do porto.
Imagine Vossa Alteza o que
aconteceu: D. João obrigou a pobre rapariga a casar-se
com o tenente da Guarda. Deulhe
cinco contos de dote...
E desembuchou tudo. D. Pedro fremia. Os seus nervos
estalavam. Os olhos ardiam-lhe,
febrentos. Aquilo desordenara-o. Era doloroso como um
punhal que lhe entrasse pelas
carnes. Eis que o príncipe, no seu atordoamento, começa a
tremer. De repente, sem
saber como, uma nuvem passa-lhe pelos olhos. As órbitas
dilatam-se-lhe. Uma súbita
rigidez penetra-lhe os músculos. A boca espumeja-lhe,
sangrenta. E D. Pedro desaba
pesadamente no chão.
Era o ataque.
Pg 25
* * *
Aquela assiduidade ao Cauper, aqueles passeios pela
chácara, aqueles mimos e
galantarias para com as moças, foram um espinho na alma
da princesa. D. Leopoldina
começou a sofrer. O ciúme, o tal "green ey'd
monster" de Shakespeare, cravou-lhe a
primeira mordida no coração. Tornou-se-lhe um suplício
acompanhar o marido ao almoço
dos Caupers. Aquilo doía-lhe. Aquilo infernizava-lhe a
lua de mel. E D. Leopoldina não se
conteve. Certa manhã, ainda nos seus aposentos, D. João
recebeu a visita da nora. A
princesa vinha nervosa, estranhamente inquieta. Entrou.
Atirou-se aos pés do monarca,
soluçando. El-Rei ergueu-a carinhosamente. E condoído,
muito solicito:
- Que há, minha filha? Que há?
D. Leopoldina contou-lhe tudo. Os almoços, as
intimidades, os passeios pela chácara, o
estribilho de todos os dias:
- Oh, Cauper, fica-te por aí com a princesa: eu vou me
divertir um bocado com as tuas
filhas.
D. João ouviu. Consolou ternamente a desesperada
austríaca. Fez-lhe um agradozinho
no queixo:
- Eu sei de tudo, minha filha! De tudo! O Sousa Lobato já
me pôs a par dessas
leviandades do Pedro. Aquele rapaz é assim mesmo, minha
filha: um desmiolado! Mas
deixa o caso por minha conta. Eu serei por ti.
Beijou a nora, fez-lhe outro agradozinho, mandou chamar ali mesmo o Visconde
(n.d.r. Conde) de Parati, o valido, a fim de resolverem aquele caso de família.
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